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Blog de carozisk
 


 

conto  de 2007 também, escrito depois de conhecer a capital.

 

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Eles viviam em Brasília


Eles viviam em Brasília, numa daquelas quadras que à primeira vista parecem todas iguais. E embora a cidade não parecesse  exatamente o cenário ideal para um romance intenso, tinha sido ali mesmo que tudo começou. Não é que na capital federal não se viva como se vive em qualquer canto, mas é impossível negar que é estranho dizer: me apaixonei perdidamente em Brasília. Naquela cidade que carece de uma cidade pra se viver. E que é planejadamente linda. O fato é: se conheceram e foram viver juntos em Brasília. Por amor.


Ele passou uma longa temporada fora de casa, à trabalho. Ela sentia saudades a todo momento, pedia pro tempo passar rápido. E não é que ele não sentisse. Mas é verdade que ele estava bastante concentrado em tudo o que tinha que fazer, nos chefes que queria impressionar, e não sofria tanto. Sabia que o tempo passava rápido e que voltar pra casa era sempre voltar pra casa, porto seguro e feliz.


Só que as coisas tomaram um outro rumo, o trabalho se estendeu por tempo demais. Ele voltou algumas vezes para vê-la, mas não foram muitas. E por mais que procurasse agradar com flores e presentes,  ela estava magoada com tanta distância sem data de retorno, e passou a se proteger. Os telefonemas foram cessando, e até que no último mês, deixaram de existir. Sem qualquer conversa ou discussão , estavam separados por quilômetros e por uma enorme falta de palavras pra dizer.


Era quase de madrugada quando ele parou o carro na rua, em frente ao prédio. O som do motor cedeu ao silêncio de uma noite tranqüila. Ele ficou quieto alguns instantes antes de sair do carro, e  por fim entrou no primeiro andar do prédio.


Os dois estavam tão concentrados no que faziam de modo que nem ouviram ele cruzar a sala e entrar no quarto, de modo que aquela visão sem qualquer sombra de dúvida ficou cravada em tudo que era ele e por muito tempo ainda.


E viu que havia uma bermuda sua pendurada na cabeceira da cama, muito perto dos dois.  Não podia compreender direito então se fixou na bermuda, tentando partir dali. Era sim a sua casa aquela e definitivamente. Eram as suas coisas ali e uma mulher e um homem. Era a coisa mais impossível de se ver o que ele tinha visto, e uma espécie de sangue ruim correu por todo o corpo. Quando o cérebro parece dizer: estou quase deixando de existir por favor não deixe. E tudo isso é o tempo de focar a bermuda e ver. E só.


Restaram   só duas formas de sobrevivência . Primeiro, morrer ali mesmo, subitamente. E depois, viria o   tremendo esforço pra nascer de novo, com direito à gestação e cesária. E depois, deve-se contar sempre com a possibilidade trágica de não nascer nunca mais e morrer pra sempre.


Como segunda opção,   manter um certo controle e até algum bem estar diante do fato. Ver –se forte diante do que é cruel e mais forte. E isso significaria contrair uma doença terrível que com o passar de pouco tempo se alastraria por todos os poros e provocaria um sofrimento atroz. Mas nesse caso, morrer não é alternativa.


Ele escolheu a morte e foi pra cima do que lhe agredia. Sem medidas. A mulher gritou. E gritou mais vezes enquanto ele tentava socar de todas as formas o sujeito que era muitas vezes maior que ele. E ele não ouvia a voz dela há dias então houve um momento que os gritos fizeram com que olhasse pra ela. E ela não estava linda. Porque era linda, mas havia os olhos que estavam cheio de água e sentimento e de amor. E ele se sentiu repentinamente amado por ela. Insuportavelmente amado por ela. Enquanto procurava por um soco ou pontapé, ele olhava os olhos dela que não ia esquecer. Uma maneira difícil de amor. Uma maneira sem sorte e de pouca alegria. Mas ele sabia que era certo que era. Naquele momento.


As perguntas que ficariam depois disso eram pra sempre insolúveis, porque nem sempre se pode perdoar uma dor tão aguda. 


E se aquela água nos olhos era só uma visão de oásis, um paraíso perdido, um desejo de não morrer pra sempre. Se era só um jeito de não pensar nela com tanto horror. Um jeito de colorir um paisagem irremediavelmente cinza. Ele não ia saber. Na certeza de que existem histórias que quando acabam deixam dúvidas. As histórias que dão saudades dos pais que podiam responder que a resposta era não porque era não e pronto. Porque eu sou seu pai. Sua mãe. E então o certo é assim.


Não há dúvida de que as pessoas ficam marcadas pela tristeza. De que gente se deixa ferir.  Mas é verdade que a felicidade também deixa suas marcas. E talvez por todo o resto, talvez ele pudesse, com o tempo, esquecer .  Deixar-se. E até se perdoar, por ver e não ver. Mas a marca que felicidade deixou. Mas o momento de alívio em que ele viu amor naqueles olhos.

 

Aquela sim, por menos visível que fosse, ela sim:  doía sem trégua ou compaixão.

 



Escrito por carozisk às 01h24
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O Bananal

 

 

 

O Bananal era um corredor de bananeiras, que se agrupavam formando núcleos que podiam virar uma casa, uma base, um navio. Qualquer coisa.  Ao lado do Bananal, tinha um parque com outras árvores,  cujo chão era coberto de palha, material que  utilizávamos pra todo tipo de construção.

 

 

A união da palha com as bananeiras era imbatível. Mas como todo mundo queria ter bastante palha para otimizar as brincadeiras, nós armazenávamos o material. Voltávamos pra casa com enormes sacos de lixo, cheios de palha. Isso garantia que teríamos o suficiente para o dia seguinte. Questão de sobrevivência. Na Escola da Vila, a palha valia ouro.

 

 

Me lembro com precisão do dia que a nossa classe inteira brincou junto no Bananal. E como recompensa por aquela união que nunca tinha acontecido, a Cris Preta falou que ninguém precisava voltar pra classe, a hora do parque tinha sido estendida até o fim do dia. Felicidade total, éramos merecedores de um parque sem fim, tínhamos inventado uma brincadeira tão importante quanto ter aula.

 

Mas foi um dia ambíguo pra mim. Ao  mesmo tempo que tinha aquela liberdade toda (quem disse que vinte crianças de seis anos não conseguem se organizar em torno de um ideal em comum?), uma outra situação me marcou.

 

 

Estávamos brincando em um daqueles núcleos de bananeiras, e o Gui me disse: Eu sou o pai. Você é a mãe. Essa é nossa casa. Esses dois são nossos filhos. E eu tinha que dar mamadeira pra eles, improvisadas com galhos de bananeira.

 

Eu morri de medo. Vontade de fugir mesmo. Inclusive, acho que foi o que eu fiz. Dei um jeito de escapar e sai correndo daquele teatrinho que  eu definitivamente não estava preparada para encenar. Aquilo me fisgou a ponto de hoje conseguir identificar o sentimento que passou por mim, mesmo depois de vinte anos.

 

Quando nós decidimos namorar, eu, o Gui e a Luiza, ficou mais fácil pra mim. Fiquei sem tantas responsabilidades, e me senti mais à vontade naquela relação menos convencional.  Lembro da gente andando de mãos dadas no parque da frente, uma de cada lado do Gui, no auge dos nossos seis anos.

 

A minha aproximação dos meninos parecia fazer mais sentido sem tanto romance. Todo dia, um grupo deles sentava numa mesa que era conhecida como a “Mesa dos Meninos”. Obviamente que, nesta mesa, meninas nem pensar. Numa manhã, estávamos todos sentados em roda, fora das mesas, quando minha amiga entrou na classe atrasada. Ela ficou sem saber o que fazer porque o único lugar que tinha sobrado era na fatídica mesa dos meninos. Eu disse que ela podia colocar minhas coisas lá e sentar no meu lugar. Jamais teria me arriscado tanto sozinha, mas pra ajudar a minha amiga, eu podia tentar. E daquele dia em diante, a mesa dos meninos passou a ter meninas também.

 

Mas eles resistiam na idéia da separação de gêneros. Além das lesmas, que eles adoravam espetar num galho pra correr atrás da gente, provocando  gritos histéricos, um grupo de meninos tinha descoberto alguma coisa no Bananal , que a gente não podia ver. Quando a gente se aproximava, eles abaixavam a calça pra nos assustar. E nós, as meninas, saímos correndo morrendo de medo dos pintinhos de fora!

 

Um dia eu e a Maria resolvemos que íamos encarar aquilo e descobrir o segredo. Resistimos à técnica infalível deles: olhamos pro alto e dissemos que não íamos correr. Naquele mesmo dia, nos juntamos ao “Grupo do Buraco”. Durante dias, passávamos a hora do parque cavoucando a terra pra tentar desenterrar um objeto desconhecido que estava enterrado ali. De novo, unidos por um bem comum, e encantados com o mistério do que aquilo poderia ser e representar. Até que finalmente acabou. Vitoriosos, desfilamos pela escola carregando todos juntos o que parecia ser , segundo os adultos, um escapamento de carro enferrujado. Ninguém achou tão legal quanto a gente, e as professoras disseram pra soltar aquilo, poderíamos nos cortar e contrair tétano. Mas eu ainda me lembro da expressão do Gui, de orgulho, vitoria e satisfação enquanto a gente carregava aquele estranho objeto enferrujado para toda a escola ver.

 

Eu não me sentia parecida com os meninos. Quando a Laura caiu da árvore enorme que tinha no parque da frente, ela e a Mamá passavam horas lá em cima, eu achei tão estranho. Não me imaginava subindo naquela altura, e muito menos caindo. Não tinha coragem pra subir , e muito menos pra cair. A Mamá tinha amigos meninos e não gostava das brincadeiras de casinha. Lembro de uma vez que ela pediu pra ser o cachorro da casa! Ela não gostava das frescuras, do cor de rosa. Eu gostava. Mas também tinha admiração pelos meninos e gostava de estar perto deles, mesmo que me perturbassem  um pouco, eles eram sinonimo de aventura.

 

O tempo passou, o primário trouxe novas amigas. Lembro do dia que paramos de guardar a palha por um momento porque tínhamos que conversar sobre a nossa amizade, eu e a Mari, amigas desde a primeira série.  A Mari estava chorando quando o Gabriel Arruda (muito temido nessa época) passou por nós e riu do nosso draminha particular. Sentimos medo e ficamos quietas. Nessa altura, os meninos já eram um mundo distante.

 

 O Bananal e a palha foram acabando aos poucos. A Sônia, diretora e mãe da Mamá, disse uma vez que ia deixar três bananeiras: uma pra mim, uma pro Gui e uma pra Mamá. Teve até  gente que ficou com ciúmes. Mas as últimas três sobreviventes do Bananal acabaram indo também. A gente lembrava disso com tristeza.

 

 Hoje percebi pela primeira vez que de alguma forma estudamos lá durante a infância da escola. Ela cresceu junto com a gente. Hoje é uma escola adulta, tida como referência em todo Brasil. Os alunos de hoje tem outra sorte, coisas que muitas vezes não tivemos. A Pitu me conta as histórias da classe dela, do amor pelos alunos que sentem que crescer é difícil. Do choque ao se depararem com uma palavra nova, como a enigmática “desonestidade”. Eu entendo que definitivamente eles também tem sorte.

 

 E a nossa sorte foi ter o Bananal, a escola antes de crescer e virar adulta. A nossa sorte foi manter o Bananal vivo por muito tempo além da infância, a ponto de chorar pelas bananeirazinhas que foram indo, dando espaço pra outra escola. O Bananal virou o nome do nosso livro que foi publicado quando nos formamos e saímos da escola. O André, professor de redação, foi quem percebeu que parte daqueles adolescentes de quinze anos tinha gravado na memória um Bananal que ainda existia.

 

A memória intensa daquela escola ainda em construção, cheia de espaços a serem preenchidos. A horta que ficava lá atrás, que tinha um único girassol que me parecia impressionantemente lindo. A horta que servia antes de tudo para ser vista. Era um grande passeio ir até lá. O melzinho que a dona Maria e o seu Antônio vendiam. O Bananal nosso de todo dia.

 

Fiquei pensando também nesse medo de casar e criar filhos na bananeira, e achei engraçado. Percebi que se eu fosse um personagem e tivesse que me dar uma memória de infância, seria bem romântica, pensaria num namoradinho que fosse meu melhor amigo, algo assim. Não pensaria na vontade de fugir, na mesa dos meninos, nem na turma do buraco. Fiquei com a sensação de que não sabia direito quem eu era. E  não sabia muito bem o que concluir.

 

 No  carro, quase chegando em São Paulo, me veio a melodia de Crazy do Aerosmith. Em um segundo eu, a Pitu e a Luna cantávamos a música com todo fervor da nossa pré-adolescência.

 

Desde então, não consigo parar de ouvi-la. É impressionante como uma música pode guardar o que a gente é.

 

A paixão avassaladora e incontrolável. A vontade de ouvir a mesma música tantas vezes a ponto de doer o dedo de tanto apertar o botão do walkman. Nem sei explicar a sensação deliciosa que eu sentia. A vontade de sair correndo e vivendo com toda força do mundo quando aquele cabeludo maluco gritava que estava louco por ela. 

 

Pra mim o principal era isso, essa vontade incontestável de ir lá, ver como era. E estar acompanhada por aquele sentimento deixava o mundo ser um lugar bem preciso pra se estar naquele momento. Eu era a pessoa certa, na hora mais certa. Munida de um sentimento que não tinha nem certo nem errado. Um sentimento perigosamente perfeito.

 

Ou seja, pode-se dizer que eu estava atrás de confusão. E fazendo uma retrospectiva, de fato fui muito bem sucedida nesse sentido. Mas partindo da música, foi como olhar do princípio e entender a primeira faísca que iniciou toda a engrenagem. Entender o que eu estava procurando. Independente dos resultados estabanados, desastrosos e pouco correspondidos que alcancei.

 

Me fez pensar no que hoje, eu procuro. Já que Aerosmith já não é mais exatamente minha banda favorita... Embora o prazer de reencontrar essa música tenha sido uma grande surpresa.

 

Sem saber se essa pergunta pode ser respondida agora, fiquei pensando que o melhor a fazer talvez seja  continuar recolhendo minha palha diariamente, confiante na brincadeira do dia seguinte e  confiante no seu valor. 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por carozisk às 20h35
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Escrever como quem escreve 

 

Pra ser precisa, passei algum tempo verdadeiramente silenciosa. Pouco tempo. Depois, algum tempo sem coragem de esquecer, quero dizer, de escrever. Ato falho mantido.  Ou querendo escrever o que achava que não devia. Aí vieram as idéias pela metade, que dão muito ânimo, mas morrem antes de nascer, e que  foram logo substituídas pelos textos escritos mentalmente, que não digitei. Não só por preguiça e cansaço, mas também por causa de uma dor muscular na mão, que me obrigou a economizar um pouco o esforço diante do computador. Ou seja, se um dia eu for uma escritora muito famosa e muitos jornalistas se aglomerarem em torno de mim e um deles perguntar “como você se sente sendo uma escritora de sucesso?”, vou poder dizer “com muita dor na mão”. Enfim, esse tempo ainda não chegou e por enquanto o consolo foi trocar o teclado e escrever assim mesmo.

 

A verdade é que o último texto postado aqui foi tão importante pra mim, virou até discurso de formatura da Eliane, minha professora no Equipe, o que me deu muita alegria... Ok, vou contar pra vocês: perdi na votação pra ser orador da turma, nunca fiz o discurso do grand finale que treinei no espelho (ai que vergonha alheia!), mas através do blog acabei falando um dia pra um monte de adolescentes morrendo de medo e de vontade de crescer! Obrigada, Eliane.

 

Além disso, o “Conversa de meninas” reverberou entre amigos e desconhecidos, recebi emails e comentários que me marcaram, me emocionaram... Acho que por isso também o tempo passou diferente.

 

Mas além disso, ele criou em mim uma certa expectativa, fiquei me perguntando  qual seria o próximo assunto... E ainda além disso, percebi que a internet é mesmo muito maluca, tanta gente lendo esses textos que sempre foram escritos pra ficar numa pastinha do Word.

 

Ficou até meio incômodo ter um blog. Desisti do blog. Muita coisa pra escrever, pra fazer. Dor na mão. Medo e expectativa. Medo de decepcionar. Expectativa que nos tira o foco na hora de escrever. Hora de agir.

 

Deixar a vida entrar pela porta da frente. Sem cerimônias. Tocar um sambão e atravessar a avenida a pé. Uma avenida qualquer. Necessidade pura e simples de seguir em frente, andar em linha reta, à diante. Deixar disso. Ir dançar.

 

Escrever é muito bom.

 

As coisas vão ficando tão sérias e eu não quero me esquecer do dia em que li Manuel Bandeira e ele disse só pra mim, bem no meio do mundo, que não queria saber de poema que não fosse libertação.

 

Eu estou cansada de mim e de todo mundo que esqueceu da poética do Manuel, e de tudo que é bem escrito, bem feito e preparado, sem ser verdadeiro. Estou cansada de andar na corda bamba das relações sem direito à epifania da Clarice, que conversava comigo de noite antes de dormir. Ficou tudo na moda e eu desisti. 

 

Acho que dizer a verdade tem a ver com achar a freqüência certa. Você gira o botãozinho do rádio até que por um milímetro você pode ouvir a música com nitidez. A música que antes não tinha contorno, nem precisão.

 

Paulo Vanzolini, sacudindo a poeira da própria música, diz que todo mundo fala da volta por cima e esquece do verso importante: reconhece a queda. Meu pai escuta e me fala. Na frequência certa. Ele é bom nisso.

 

Me lembro de ser criança e de não gostar de quem eu achava feio ou esquisito. Me lembro de ter crescido e continuado a pensar assim. Não nasci pronta pra gostar de todo mundo.  Ri da Clarice Lispector, decepcionadíssima num conto por não poder amar um rato, por não poder ser mãe do mundo. Nem amar a própria natureza. Ri, decorei o texto e desejei com muita força que ela estivesse viva, pra conversar normalmente comigo e não com palavras tão bonitas, que nos desviam da pessoa!

 

E além do monstrinho da aparência, fui também uma criança que escrevia coisas como: no silencio do futuro, encontrei um ruído. Ou então: entre ares do sertão, encontrei um passarinho. Mesmo sem nunca ter encontrado essas coisas, e sem saber até hoje onde encontrei essas palavras.

 

Não sei se estou sendo clara com essa sequência de coisas que estou dizendo, nem se está saltando delas o que eu gostaria de dizer. Mas também não é hora de pensar nisso. Não quer dizer que quem vai ler esse texto não seja importante. Pelo contrário. Ainda mais aqui.

 

Eu pensava que a necessidade de se fazer entender é que era o coração da comunicação. E então quem fala procura usar as palavras que o outro usaria, pra se fazer entender. As palavras que ele usaria pra dizer o que penso, são essas que devo usar pra me comunicar. Assim , ele facilmente vai me entender, e assim, facilmente estaremos em contato, nos comunicando. Em última instância, é claro que não posso adivinhar o que você diria, ainda sou eu falando, mas tentando pensar como você pensaria. Pra que você compreenda o que eu penso.

 

Não funciona. Ou melhor, não é suficiente. Comunicação não é só isso. Se fazer entender.

 

Acho que o que é realmente vital pra que a comunicação aconteça, é  a necessidade de expressão. Sempre. A vontade pura e simples de falar, de entrar em contato de alguma forma. A vontade de sair da arquibancada e pisar na avenida, seja como destaque ou no meio da multidão. Não é a vontade de aparecer, é a vontade de estar lá. De presenciar e se fazer presente. Por isso, é vital usar  as próprias palavras. A própria freqüência. Sem concessões. A vontade de te dizer quem eu sou é que me leva até você. Se não, tudo se esconde. E não se enxerga mais nada.

nós somos diferentes e ponto. A vontade sincera de te dizer quem eu sou é que me protege da vaidade de ser quem  eu sou. Do exibicionismo. Da arrogância.

 

É vital falar como quem fala.  E escrever como quem escreve.

 

Tão difícil quanto reconhecer a queda. Encontrar o lirismo que é libertação. Amar a própria natureza.

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por carozisk às 22h20
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 Conversa de meninas

Estávamos no clube, eu e a Luna, comendo nossos sanduíches, quando vi a cena. Mãe e filha andando pelo espaço numa daquelas brigas de mãe e filha. O mundo se fecha e só existem as duas, além de uma dose de palavras cortantes e uma porção de sentimentos difíceis de conter. Na verdade,  não é exatamente que o mundo se fecha, talvez o mais preciso seja dizer que ele se torna por certo tempo desimportante. Casais , quando brigam em público, costumam ter em algum momento aquele constrangimento, aquela lembrança remota de que não estão sozinhos. Afinal de contas, casais também sobrevivem porque querem dizer aos outros que são bem sucedidos, pois há um grande valor em ser um casal. É o cultivo das boas aparências, que vai sobreviver sempre, porque também em doses moderadas nos faz bem e nos ajuda a viver uns com os outros. Entre mãe e filha, isso não existe.

Uma vez numa loja de roupas, vi outras duas representantes dessa equação, passeando pelas araras. A mãe tentava agradar de alguma forma , mostrando o que achava bonito, e a garota era de uma crueldade com ela, desprezava com força o gosto da mãe, ressaltando o quanto ela não sabia do que estava falando. Senti pena da mulher, ela tinha sido mulher a vida toda, tinha comprado roupas a vida toda, e agora era desclassificada por uma adolescente petulante. E embora o tom da garota fosse quase repugnante pra quem ouvia de fora, ela tinha todo espaço pra ser assim. Elas eram mãe e filha, podiam suportar. Senti pena, mas senti saudades também.

 

Quando as duas do clube passaram por nós, juntei as lembranças e contei o que tinha percebido pra Luna: essas brigas me dão vontade de chorar, e não é de tristeza. Ela riu e entendeu. Não sei se os motivos, mas a minha sensação certamente ela entendeu.

 

Na hora de decidir sobre o que escrever, percebi que só podia falar sobre isso, mesmo que me parecesse íntimo demais. Foi o assunto que me escolheu. E também, convenhamos, se eu ficar só falando sobre ilustres desconhecidos, esse blog  não vai ter graça!  "Se não queria se expor , escolhesse outra coisa pra fazer da vida..." digo sempre pra mim mesma nas horas de covardia.  Quando a gente escreve, sobe num palco, canta uma música, exibe um filme,  está sempre, mesmo quando discretamente, se confessando.

 

De volta pra minha vontade de chorar. Não foi um desses sentimentos que batem na porta e pedem licença pra entrar. Foi mais como um assalto, desses  em que os ladrões sempre parecem brotar do chão. Quer dizer que eu tinha saudades daquelas brigas terríveis com a minha mãe. Aquelas que a gente arduamente combateu para extinguir por completo do nosso convívio. Aquelas que sempre nos fizeram tão mal, símbolo maior da nossa dificuldade de nos entendermos. Que nos levavam do nada ao lugar nenhum. Contabilizando que todo esse trajeto era  percorrido aos gritos, aos berros. Não era possível, eu não podia ter saudades disso!

 

Não é a toa que a palavra saudade está entre as mais difíceis de se traduzir. Numa pesquisa recente, ela está em sétimo lugar, perdendo para a campeã "Ilunga" que significa no sudoeste da República Democrática do Congo "uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez".

Costumam traduzir saudade como falta, como se quem sentisse saudade quisesse retornar, ter de volta o que perdeu. Mas eu acredito que sejam dois sentimentos bem distintos, o da falta e o da saudade.

 A falta dói como algo que morreu, que deixou de existir. Sentir falta é sentir um vazio por dentro, é querer de volta o que estava ali. O que devia estar ali... mas faltou.  A falta não faz companhia pra ninguém, é um sentimento de inverno, que requer muito cobertor e conforto pra tratar.

Já a saudade esquenta a gente por dentro. E por mais que aperte o coração, trás coisa boa. Por que não deixa a gente sozinho.

A saudade é o que a gente já não é, mas continua sendo. Mesmo que morra. A saudade a gente mata quantas vezes quiser. E ela vive pra sempre.

Pois bem, então era possível ter saudades daquelas brigas, e vou explicar, pelo menos em parte, o por quê.

Primeiro porque havia alguma liberdade ali, mesmo que fosse estar livre pra mostrar o que havia de pior. O que havia de mais difícil e insuportável, e quem já viu duas dessas falando em disparada sabe o que eu quero dizer com insuportável. E minha mãe me deixou ser. Insuportavelmente intensa, dramática, desequilibrada, passional. Com ela eu podia. Entre nós , era possível. E quem sabe, era até desejável.

E o que se ganha com isso? É uma pergunta a se fazer.

O que eu entendo, é que ela me acompanhou num caminho escuro, de difícil acesso, onde mora o pior dos medos, o inimigo de toda coragem, mais nefasto que diabo, exu, tudo junto: que é o de amar tanto e a tal ponto, que a gente já não saiba voltar. Um caminho que quando a gente não percorre, fica sozinho. E que quando percorre, fica mais sozinho ainda... mas enxerga que existe gente do lado,  gente pra compartilhar.

É o medo de não ser bonita que nos faz odiar toda roupa que ela aponta. Medo de fazer feio, de não dar certo. Medo de que as coisas sejam difíceis e que ela não esteja mais lá, fazendo a retaguarda. É o medo de não ser mais filha, e enfim, ser como ela. E agüentar o tranco.

Então, agora que eu sou que nem ela ,  as brigas  não fazem falta. E mesmo que fizessem, é claro também que não se pode passar a vida assim. É necessário que essa cumplicidade, aos poucos, se transforme. Que as meninas virem mulheres. Parem de brigar com as mães. Que vão cuidar um pouco da própria vida e as deixem cuidar da delas. 

Mas vão ter sempre mães e filhas de todos os tipos, de todas as classes sociais, religiões e cortes de cabelo, enfurnadas em seus mundinhos em guerra, nadando por aí em águas profundas. E eu vou sentir saudades e pensar  que é graças a elas que existe hoje alguma saúde em todas as relações que são importantes pra mim. Quem sabe graças a estas brigas, hoje eu sou capaz de ter amigas tão queridas, que lêem os meus textos até o final... sejam eles bons ou ruins...

Amigas que também são sozinhas, mas que compartilham comigo as "vastas emoções e os pensamentos imperfeitos" que a gente vai encontrando pelo caminho. Que sentem calor na nuca e que portanto não molham só a ponta do pé quando encontram muita água pela frente. Amigas que entendem o que eu quero dizer quando digo que são minhas amigas. Que compartilham comigo o valor inestimável dessa palavra. Porque as palavras também são nossas amigas de infância, já que não tínhamos o  hábito do futebol...Que compreendem que ter amigas é um jeito de ter e ser mãe e filha pra sempre, sem precisar namorar escondido ou lavar a louça na hora certa...

De novo, minha teoria sobre o amor se confirma: é uma erva estranha que gosta de brotar em terrenos cujas condições de existência não são nada propícias. A paixão brota em quase qualquer lugar, o amor é dado a estes desafios. Passados anos, eu só vejo amor nas brigas de ódio com a minha mãe. Só sinto saudades.



Escrito por carozisk às 00h54
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vigia noturno

 

Hoje fui ver a peça nova do Felipe, amigo querido e namorado da Iara, amiga desde sempre (desde da época do vestidinho de xadrez de babados). Eu esperava alguma coisa mais leve e engraçada, não que a peça não tenha humor, inclusive porque os três atores estão bem afiados  nas piadas e na interpretação dos personagens um tanto quanto patéticos. Mas esperava ver o humor mais descompromissado do Felipe, suas ótimas sacadas , imaginação solta. Mas não... sai um pouco perturbada.  A peça é ácida, de difícil digestão, e não tem muita compaixão pelos pobres artistas, enfurnados num apartamento alugado, tentando fazer arte. O texto é inteligente  e surpreendente também, como os que eu já conhecia. Ele continua rindo das tentativas alheias de se contar uma boa estória, joga fora a necessidade da estrutura bem determinada e vai pro lado que quer, mas dessa vez parece fazer isso com mais certeza do lugar pra onde quer nos levar. Mesmo que ele insista em disfarçar isso... O Felipe não só escreve com um pseudônimo, ele de fato está bem escondido no que escreve, no bom sentido.

Voltei pensando que não sei se gosto dessa falta de compaixão. Talvez eu prefira acreditar que as pessoas não são assim tão superficiais se olhadas bem de perto. Talvez eu goste demais de gente pra dizer que concordo com isso. Posso dizer que tenho uma paixão inata por gente, quase herdada de família, que causa problemas e benefícios há muitas gerações nossas. Mas gosto dessa necessidade colocada pelo Felipe  de puxar a cortina do espetáculo com força, abruptamente e  com violência, pra mostrar que nesse caso, nada está bem. Que nem sempre as tentativas de dizer que tudo vai bem são sadias. E que pessoas incapazes de encarar as próprias derrotas, as próprias limitações, muitas vezes se tornam artistas. Não pra viveram da própria criação, mas pra se denominarem uma espécie de deuses intocáveis, a quem a vida não machuca, como se isso fosse possível...

Enfim... estava eu no carro, dirigindo, ouvindo o mesmo cd que estou ouvindo há dias, pensando nessas coisas, no mal estar da peça, unido a outros pensamentos estranhos que tem passado por aqui, quando o sinal fechou e meu pensamento contínuo foi interrompido pela falta de velocidade. Dei aquela olhadinha pra esquerda e vi um vigia sentado na sua cadeira, numa rua vazia.

Meu olhar cruzou rapidinho com o dele, e o sinal abriu. às vezes quando um olho cruza com outro, ficamos por um instante com a sensação do que aquele olho contém, acho que todo mundo vive isso ,  não penso que seja privilégio meu... quer dizer,  nem sempre isso é um privilégio, porque determinados olhares podem até estragar uma vida... mas o fato é que é coisa que acontece. E quando engatei a primeira o vigia já estava comigo. E veio aquele pensamento:

Você já imaginou, Carô, passar a noite toda nessa cadeira olhando pra uma rua vazia. E de vez em quando um carro ou outro passa. As horas passam. E você ali, na sua cadeira. Sem internet, livro de cabeceira, telefone pra conversar. Só você e a rua vazia. A noite toda. Sentada na cadeira. Olhando a noite, seja ela qual for.

Não foi um pensamento a respeito da violência urbana, não pensei nisso como algo amedrontador.

Pensei que devia ser necessário ter muita calma por dentro pra atravessar várias noites assim. Uma calma que nem sempre se tem, mas que se faz necessária.  Poucas coisas são tão difíceis quanto olhar por muito tempo a vida assim, parada, adormecida. Mas imagino que com o tempo existe alguma paz em se habituar com esse sempre igual da rua silenciosa. Com esse tempo de quietude e espera. Afinal de contas, não existe dúvida de que vai clarear. O sol vai vir sempre, a hora de voltar pra casa. Não existe dúvida. A menos que se tenha que sustentar essa certeza por uma noite inteira. O difícil é não duvidar.

Então fui um pouco como ele, num instante mínimo de pensamento. Como todos sabem, é isso que fica do olhar que passa, uma sensação do que se tem dentro.  Ou melhor, uma suposição do que se tem, baseada em fatos reais. É também disso que se faz teatro.

E nasceu ali um desejo de olhar pra fora, pela janela. E eu já não pareci tão difícil pra mim, porque afinal de contas, existem tantas coisas instigantes pra se descobrir, sejam elas boas ou ruins. Tantas coisas que eu não sei. Tantas coisas que eu não sou. Que me desperta a vontade de uma noite menos melancólica, como parecia ser essa.

Tudo isso pra dizer que imediatamente depois dessa pequena epifania, em que por um momento todos os assuntos citados a cima fizeram sentido juntos, me ocorreu o pensamento final: vou fazer um blog.

Preciso começar a contar essas coisas, mesmo que ninguém leia, senão vou ficar louca. Não tenho talento pra noites vazias e silenciosas.... Nunca tive, embora tenha atração por elas. Não sei vigiá-las, elas é que me espreitam. Quem sabe o olhar do desconhecido, do alheio, me ajude. Então resolvi assim, criei pra mim um blog disfarçado de vigia noturno... e vice-versa.



Escrito por carozisk às 02h18
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